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terça-feira, 3 de outubro de 2017


Foi preciso que deixassem pra trás os retratos, pois eram ícones, como as cruzes. Chamava-se Resolução, fiquei sabendo por quem estava próximo e por oportunidade me contou, acho que foi assim com todos, mais ou menos. No terceiro dia todos se despiram e sobreveio um eclipse, ao que uma longa gargalhada ressoou pelos continentes. Foi a Resolução, cuja alcunha acadêmica era a Morte da Memória, nos termos de historiadores em flagrante contradição.

remembra

assombrame o braço empostado pelo gesto ou a postura
um pender estilo clinamen show de osso por cima
a musculatura tesa em automação
elétrica trameada piezo ezpressiva
no rosto, contando o meu

em retalhos cosidos trapos estirando a rede da pele
um sorriso que ourivesaria estiletada marca
fendendo a face em símbolo pra dizer
sim, mas nunca
mais

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

despedida 19/4/2014

(Vemos o banco vazio em uma praça insípida, é uma tarde nublada, corte súbito)
(Vemos uma moça sentada sobre o banco . Ela usa um vestido florido e seus  cabelos estão desbotados por pinturas sucessivas. É uma manhã radiosa, os pássaros cantam. Ela parece satisfeita, esboça sorrisos constrangidos; em um breve lapso de descontentamento porém, suas mãos buscam sua bolsa , puxa um cigarro apertado e seu dedão sobre o mecanismo do isqueiro é o ensejo para outro corte súbito, com mesmo enquadramento que o primeiro)
(Vemos um jovem rapaz de terno, é noite sem luar, sua face exprime apenas austeridade e resolução, há névoa e seus óculos embaçam; ele os limpa com a própria camisa, corte súbito, com mesmo enquadramento que o segundo e o primeiro )
(Na mesma pose em que os abandonamos estão o homem e a mulher, na tarde nublada, compartilham um momento confortável de silêncio)
M – Encontrei o caderno.(pausa) Estava no depósito de achados e perdidos, na estação final. Já perdi coisas menos valiosas no vagão, é estranho que nenhuma tenha parado lá.
H – (Sempre impassível) É estranho que você tenha voltado lá mais uma vez; tendo fracassado em encontrar por ali o que quer que você tivesse perdido nas outras vezes.
M – Mas valeu a pena não é? Dessa vez eu encontrei.
H – Certo.
M – Chama-se Esperança, isso que me fez voltar; estão apresentados. (sorri e fuma)
H - Tem cinquenta mil anos, mas ainda é morena o suficiente pra prostituição.
M – (gargalha) Quanta intimidade, Lorenzo! Já contratou seus serviços?
H – Mais de uma vez; com certeza nunca senti sua presença gratuitamente.
(longa pausa)
M – Você é simultaneamente brilhante e idiota; isso pode te ajudar a viver quando eu não estiver mais aqui.
H – Minha vida segue seu curso ordinário em qualquer condição.
M – (fala empostada)Um curso totalmente ordinário, sem qualquer finalidade.
H – Não digo sem finalidade, há uma finalidade por sua vez ordinária: a finalidade biológica, perpetuação da espécie.
M –(sorri quase irrompendo no riso) Você queria um bebê, meu bem? Por que não disse antes?
H – Me faltou realismo. ( pela primeira vez os olhos do casal se encontram e o homem sorri, por um instante desarmado. Outra pausa)
M – Falei do caderno porque eu trouxe, tá na minha bolsa. Quer folhear?
H – Eu devo?
M – Não perguntei se você deve, perguntei se quer, quer ou não?
H – (depois de breve hesitação)Quero.
(ela busca na bolsa o pequeno caderno e o entrega, o homem vira as páginas com muito cuidado e atenção)
H – Alguém numerou as páginas.
M – Não fui eu.
H – Não se deve numerar as páginas. (pausa) os números tiram a verdade das coisas, são como os nomes, porém mais corrosivos.
M – Todo mundo já mexeu nesse caderno. Eu levo ele pra cima e pra baixo já a um ano, desde que você me deu; acho fantástica a quantidade de caligrafias que ele conseguiu capturar nesse pouco  tempo!
H – O caderno é um pouco como você.
M – O que foi que você disse?
H – O caderno é um pouco como você; já passou por muitas mãos.
M – (Por um segundo muito ofendida) Você é nojento.
H – E por isso você vai pra África do Sul?
M – Não, vou pra África do Sul porque quero.
(os dois ficam calados por um tempo)
M –(exaltada) E alguém numerou as páginas, qual é o problema? Tem gente que gosta de números, eu mesmo acho os números fascinantes, de uma utilidade gigante, sabe? Eu gosto também de sexo, de nuvens e de gatos. Eu gosto de me deixar afetar pelas coisas que me tocam, e as pessoas e as suas caligrafias. Eu não tenho medo de ser quem eu sou, mas eu sei que você tem medo de quem eu sou, do que eu represento, e por isso você quer me contaminar com esse medo, mas foda-se você e as suas paranoias.  (se levanta, e faz menção de ir embora)
H – Antes de você ir... Posso escrever alguma coisa no caderno?
M – (sorri, ironicamente) É claro.

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A cara do mundo

Para quem deseja um sol bem posto
Traço linhas nessa horizontal
Arqueadas por cisma ou à gosto
Da geoide olhando o mar Austral

Abstratas sobrancelhas franzir
Expressa ocultamente o planeta
E eu sou cartógrafo a me iludir
Que desenho o mapa da careta

Para quem quiser divino rosto
Onde espinhas sejam cordilheiras
E lava o muco em vulcões narizes

Minha escala minimiza o custo
Das humanas formas passageiras
Nas suas desumanas matrizes

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Larnaka Blues

No emaranhado das relações, mar de olhares, meus olhos são meus e são de outrem são espelhos e contêm a imagem fogueira luminosa, a expressão dos seus e dos dela, nossos gestos codificando nossa vontade truncada pela insegurança, suavizados pela surpresa do encontro, o entrechoque insuspeito, a revelação tudo que não sei, quando perdi todas opções e a monstruosa limitação, o peso da forma, a herança. Desejo desfocado me consome eu persigo o mundo como uma chama que balança em todos lados um suporte, o anteparo da imaginação, meu universo é a prisão do meu corpo e a visão que o extravasa, que demole as fronteiras. Cada perdão desterrado no suco dos lábios, como um cristal a consumação de um amor que queima, eu vi a luz da estrela penetrando meus olhos milhões de anos bilhões de interações carregadas perfurando minha visão Desequilíbrio; nosso perfil decisório, nosso portfólio de escolhas, nossa especulação estive querendo e querendo querer estou vivo na errância da palavra mas sinto a chaga da rede, a moral de uma fábula em forma fotográfica sobre a passagem do tempo

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Zürichsee

Sorridente Iraquiano
me conta“It’s beautiful,
but it’s nothing”, o jardineiro
do lago “life is like on
clock, sex, work, sex, sleep
tem um lago azul,
como eu bem recordava
e o assum preto no pife
faz grasnar algum
pássaro aparentado

Prefeitura de Gentilly

Grafite macio exige
Traço delicado
Em particular se a lapiseira
também tem sentimento doce e terno
sujeito a recuo sob pressão

Ergamos todos sentimentos em suas variações, produzamos
A fábrica, isto é o tecido das emoções universais .

O ponto me bate como a onda
Somando as partículas insuspeitas
De nossos dramas singulares
Representemos a Vontade
(Qual) rasura me presenteia a
Timidez, sou tímido que olhos lusófonos

Esbarrem nas minhas confissões