Todo

Todo
dia

quarta-feira, 17 de maio de 2017

de rep ente #2

Olha tio o rio flui a luz que a lua coa
É um cio natural num fio sem final
Um corte um bote um lote loco de trote

Tio ce tinha q ver

só frô


Aflição profunda, deslocamento, inadequação. A imagem do modelo, a estrutura do paradigma, qualquer seja. A fricção entre a percepção de objeto e a projeção subjetiva, o não reconhecimento, a inabilidade, a inércia de realizar e o vazio dos reais

de rep ente

(Quando eu falo minha língua desce pelo ralo eu abalo a estrutura e aturo  som enquanto me calo e lixo meu calo da mão no lixo da palavra abre o lixo do que eu digo o que eu persigo onde tenho abrigo e consigo)

é engraçado pa caralho ter nascido pro trabalho 

Poder

Posso observar o desfecho de uma frase entre lábios se dilatar e comprimir, posso ver sua intenção se esfacelando e recompondo como sedimentos dos seus dias, como se acumulam sobre a mesa das suas escolhas, posso ver se brilha a luz do seu gesto, da sua mente posso traçar a silhueta num esboço mental, posso penetrar sua angústia, num único traço descrever seu movimento pendular, senti-la em sua sensibilidade, onde é maleável, onde é rígida, onde é porosa,


Posso chorar se me permito, no tamanho sentimento que me escapa pelos dedos e pelos olhos, sinto onde me suponho doce, sinto onde suponho e sei da ignorância, posso sentir o ato, violando o espaço e o tempo, 

Posso ouvir cantar

tr ist e

Saudades sinto como vales hormonais, picos inversos; sem toque-contato, sem variação, estáveis sulcos no espaço mental.

São enseadas de praias rochosas, onde as crianças escorregam e quebram seus dedos presos nas fendas.


São saliva dos cachorros, como lágrimas em slow motion

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mais uma piada

 "Rápido, amor, entregue tudo que você tem a disposição pra entregar, estou incluindo o relógio e seu cabelo que se puxa, quero a sua boca amarga de alcatrão provando a minha saliva exagerada de antecipar olhos nos seus olhos escuros. Baby, eu quero a sua força mordaz de se refazer pra radicalizar o limite onde quer que ele se ponha, por obtuso que seja, por perversamente mascarado. Eu preciso de todos seus sonhos falsários, suas perdições azuis, eu quero me soterrar na avalanche dos seus caprichos. Eu vou submergir meu espírito no banho doce batista das suas lágrimas água benta que você chora de rir. Isso é uma profissão de fé declaração de amor porra deveria ser auto-evidente mas é construído como os postulados de Euclides, é imposto."

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Foi dito muitas vezes entre as duas que a existência de vida na Terra estava justificada, mesmo levando em conta todo sofrimento. Alguma coisa teria sido responsável pela reparação, ainda que um dia fosse uma, um dia fosse outra. Ida, no dia 4 de abril de 2007, estava totalmente convencida que essa coisa era a Capela Sistina.
Ida disse à Volta:
Amor; não tenha medo.
No dia anterior, Ida lera em uma revista de neurociência que A Separação entre a Luz e as Trevas ocultava uma sugestão anatômica; o queixo de Deus, que vemos por baixo, está acrescido de uma deformidade; sobrepondo essa deformidade ao mapa do cerebelo haveria um ajuste perfeito.
Volta estava cansada, o suor de um dia inteiro lhe emplastava os cabelos ondulados, e seus olhos se injetaram enquanto ela quebrou o vidro do espelho com o candelabro de ferro maciço. É possível que ela o fizesse de qualquer maneira, mesmo sem ouvir a palavra Deus, que nos lábios de Ida lhe soava particularmente ofensiva. 
Volta sabia que a coisa não era a Capela Sistina; a coisa era o amor, mas ela guardou para si esse conhecimento, amando Ida, estranhamente.
Ida disse à Volta em 13 de janeiro de 2009:
- Acho que não vale a pena, mesmo. Não existe uma compensação razoável pra dor do mundo.
Volta estava cansada com os cotovelos apoiados sobre a mesa e tragou o cigarro longamente. A essa altura ela havia esquecido da palavra amor, embora não do sentimento, isto é, ela havia refinado o sentimento ao extremo, e ficou calada, enigmaticamente, à maneira dos santos.
Anos mais tarde as duas participaram de uma cerimônia pagã em uma colina perto de Nápoles na Itália; vestindo mantos de seda vermelha todos os iniciados se reuniam em um círculo ao redor da pira e o cálice era passado em sentido anti-horário.
Ida sussurrou à Volta:
A coisa está nesse cálice, mas não é seu líquido.