Todo

Todo
dia

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A felicidade existe, e é pura
Completa, ela é una e multiplica
Vária, ela é inteira plena e se replica
Eterna, ela é passada, ela é futura

Terna tanto quanto é terno o amor
Verdadeiro como ela é verdadeira,
Ela é total, e anima todo humor
À sua imagem última, primeira.

A felicidade é simples, é vã
Despropositada e até insolente
Pra sorrir em segredo nesse breu

Ela é madrugada, ela é manhã
Que a gente escolhe saber iminente
Ela é a escolha, e é minha, sou eu

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Fortuna é irmã da Cegueira
E vou possuí-la assim, mulher;
Misticamente moça, primeira,
À maneira apenas que ela é.

Mas há de ser outra no futuro
Quando em outros braços for feitiço
Pra cegar até um herói mais puro
Na escravidão total que é só isso.

Eu, irmanado a angústia, nasci,
Por quê negar a minha raiz
Com tanta ironia que há no mundo?

Vou viver da chance de exibir
Meu charme, mas serei infeliz
Infeliz lá no fundo, no fundo...

confidência #2

Sou desonesto pra servir, e sou
Desalmado de se amar, sou ingrato
Eu sou pueril e ignoro o fato
Da vida, e de estar aqui, onde estou.

Não sei me articular, não propriamente
Já que estou inerte e não reconheço
Meu sonho, todo esforço desconheço;
Toda memória, eu desconfio, mente.

Mas é potente a conjuntura, grande
E me empurra nessa maré que insiste
Em surpreender minha natureza

Que é enganar; já me engano, enganante
Pra se destruir meu corpo resiste;
Vou me agigantar na minha baixeza.

sábado, 16 de junho de 2012

O mudo
é puro em seu coração
por oposição aos falantes
que se deixam trair
pelas palavras

terça-feira, 1 de maio de 2012

confidência #1

Meu engajamento ao contexto é total
diz alguém, com uma clara intenção de melancolia
e a lei marcial da informação poética é
informar do sentimento

(não combatemos a tristeza,
combatemos o vazio) 

graças a Deus, as palavras são vazias 
também.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Há um innuendo vocal próprio a desgraça
Do desencontro a franzir no sobrelábio
Ao esfarelamento da língua inábil
E que a toda expressão limiar devassa

E há qualquer intenção de quase um sintoma
Quando a palavra cessa ao fim da sentença
Que é uma nota cava a anunciar doença
E a sugestão negra do nosso idioma

Numa cega punção de evitar ver
Os olhos de a quem se empresta evidência
Toda um velho drama de reparação

A revelação vazia de saber
Por quê é claro não pedir-se licença
Pra partir em pedaços um coração

terça-feira, 24 de abril de 2012

Temos os olhos, como às bocas temos
                                                             sinais
Que aos sonhos vamos como os sonhos vemos
                                                              reais

Mas recostemos a um tempo de costas
                                                         despidas
Como um recorte das horas que gostas
                                                         compridas

Que temos bocas, como os olhos temos
                                                             iguais
E aos segredos somos, como seremos
                                                             rivais