Todo

Todo
dia

terça-feira, 7 de maio de 2013

agora, todo singular é plural

porque nós somos
antes que eu fosse teu
depois que tu sejas minha
e no entreato dos nossos semisegundos
perseveramos
soberanos no fracasso que anunciamos por vaidade
cediços no sucesso que ocultamos por vaidade
e nos enfeitiçamos
recolhidos em coleção a contrários
reunidos em sexo a casais
que assistimos perversamente
e que somos com inocência
e em seguida
descompassadamente ressonamos
ao tempo próprio da consciência
de se estar mentindo
horas a fio

daqui pra trás e daqui pra frente,
todo plural foi e será singular

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

confidência #4

estou possuído
por um par de olhos hipermétropes
no pouso do marasmo

meus deuses
esfumaçaram suas figuras familiares
irreconheciveis

em igual medida

eu respiro
vagarosamente
o ar umidamente pesado
de uma sugestão amazônica

por um processo análogo,

eu amo
alguma coisa que não existe
e a ela apenas
devoto toda compaixão
pelo sacrifício
dos dias

na vaidade comovida
de um abraço fraternal
acompanhado secretamente
por um deja vu

(de minha parte)

estou possuído
pela inconstância da vontade
e pelo pessimismo
que se exprime

como uma língua comum,

e toca
falsamente
a alma do mundo

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A felicidade existe, e é pura
Completa, ela é una e multiplica
Vária, ela é inteira plena e se replica
Eterna, ela é passada, ela é futura

Terna tanto quanto é terno o amor
Verdadeiro como ela é verdadeira,
Ela é total, e anima todo humor
À sua imagem última, primeira.

A felicidade é simples, é vã
Despropositada e até insolente
Pra sorrir em segredo nesse breu

Ela é madrugada, ela é manhã
Que a gente escolhe saber iminente
Ela é a escolha, e é minha, sou eu

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Fortuna é irmã da Cegueira
E vou possuí-la assim, mulher;
Misticamente moça, primeira,
À maneira apenas que ela é.

Mas há de ser outra no futuro
Quando em outros braços for feitiço
Pra cegar até um herói mais puro
Na escravidão total que é só isso.

Eu, irmanado a angústia, nasci,
Por quê negar a minha raiz
Com tanta ironia que há no mundo?

Vou viver da chance de exibir
Meu charme, mas serei infeliz
Infeliz lá no fundo, no fundo...

confidência #2

Sou desonesto pra servir, e sou
Desalmado de se amar, sou ingrato
Eu sou pueril e ignoro o fato
Da vida, e de estar aqui, onde estou.

Não sei me articular, não propriamente
Já que estou inerte e não reconheço
Meu sonho, todo esforço desconheço;
Toda memória, eu desconfio, mente.

Mas é potente a conjuntura, grande
E me empurra nessa maré que insiste
Em surpreender minha natureza

Que é enganar; já me engano, enganante
Pra se destruir meu corpo resiste;
Vou me agigantar na minha baixeza.

sábado, 16 de junho de 2012

O mudo
é puro em seu coração
por oposição aos falantes
que se deixam trair
pelas palavras

terça-feira, 1 de maio de 2012

confidência #1

Meu engajamento ao contexto é total
diz alguém, com uma clara intenção de melancolia
e a lei marcial da informação poética é
informar do sentimento

(não combatemos a tristeza,
combatemos o vazio) 

graças a Deus, as palavras são vazias 
também.