Foi dito muitas vezes entre as duas que
a existência de vida na Terra estava justificada, mesmo levando em conta todo
sofrimento. Alguma coisa teria sido responsável pela reparação, ainda que um
dia fosse uma, um dia fosse outra. Ida, no dia 4 de abril de 2007, estava
totalmente convencida que essa coisa era a Capela Sistina.
Ida disse à Volta:
Amor; não tenha medo.
No dia anterior, Ida lera em uma revista
de neurociência que A Separação entre a Luz e as Trevas ocultava uma sugestão
anatômica; o queixo de Deus, que vemos por baixo, está acrescido de uma
deformidade; sobrepondo essa deformidade ao mapa do cerebelo haveria um ajuste
perfeito.
Volta estava cansada, o suor de um dia
inteiro lhe emplastava os cabelos ondulados, e seus olhos se injetaram enquanto
ela quebrou o vidro do espelho com o candelabro de ferro maciço. É possível que
ela o fizesse de qualquer maneira, mesmo sem ouvir a palavra Deus, que nos
lábios de Ida lhe soava particularmente ofensiva.
Volta sabia que a coisa não era a Capela
Sistina; a coisa era o amor, mas ela guardou para si esse conhecimento, amando
Ida, estranhamente.
Ida disse à Volta em 13 de janeiro de
2009:
- Acho que não vale a pena, mesmo. Não
existe uma compensação razoável pra dor do mundo.
Volta estava cansada com os cotovelos
apoiados sobre a mesa e tragou o cigarro longamente. A essa altura ela havia
esquecido da palavra amor, embora não do sentimento, isto é, ela havia refinado
o sentimento ao extremo, e ficou calada, enigmaticamente, à maneira dos santos.
Anos mais tarde as duas participaram de
uma cerimônia pagã em uma colina perto de Nápoles na Itália; vestindo mantos de
seda vermelha todos os iniciados se reuniam em um círculo ao redor da pira e o
cálice era passado em sentido anti-horário.
Ida sussurrou à Volta:
A coisa está nesse cálice, mas não é seu
líquido.
*_*
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